Entre a memória e o futuro: a arquitetura de João Tiago Aguiar e a construção de uma visão partilhada

Render do projeto das Janelas Verdes

Ao longo das últimas duas décadas, o trabalho de João Tiago Aguiar tem-se afirmado como uma das abordagens mais consistentes e sensíveis da arquitetura contemporânea em Portugal. Com uma linguagem depurada, marcada pela atenção à proporção, à luz e à materialidade, os seus projectos distinguem-se pela capacidade de transformar edifícios e espaços habitacionais sem perder a ligação à memória e ao contexto onde se inserem.

Grande parte da sua obra tem incidido sobre a reabilitação e transformação de edifícios existentes, particularmente em Lisboa, numa procura contínua de equilíbrio entre património e contemporaneidade. Mais do que preservar estruturas, o atelier procura revelar o carácter dos lugares, respeitando aquilo que os torna únicos, enquanto introduz novas formas de habitar, maior conforto e uma linguagem claramente actual. O resultado são espaços luminosos, serenos e intemporais, onde a arquitetura se aproxima de uma ideia de permanência.

Essa visão exige não apenas rigor conceptual, mas também uma execução capaz de traduzir o detalhe e a intenção arquitectónica para a realidade construída. É nesse contexto que surge a colaboração entre a TANAGRA e a João Tiago Aguiar Arquitectos, desenvolvida ao longo de vários projectos marcantes. Assente numa relação de confiança, proximidade e exigência partilhada, esta colaboração tem permitido concretizar obras onde arquitetura e construção trabalham verdadeiramente em continuidade.

Nesta entrevista, João Tiago Aguiar reflete sobre o papel da habitação na cidade contemporânea, a importância da reabilitação em Lisboa, o processo de leitura dos edifícios existentes e a forma como a relação entre arquitetura e construção influencia a qualidade final de cada obra.

João Tiago Aguiar

Ao longo da sua carreira, a habitação tem assumido um papel central no seu trabalho. O que continua a motivá-lo para este tipo de intervenção e que desafios considera mais relevantes hoje?

A possibilidade de, em cada projecto, tentar ir mais longe do que no anterior. Seja um apartamento, uma moradia ou um edifício inteiro, procuramos sempre encontrar algo de único, uma identidade própria, uma determinada atmosfera. Existe também uma ideia quase inevitável de que a arquitectura pode contribuir para tornar a cidade e o mundo lugares mais belos, mais humanos e mais luminosos. E essa vontade continua muito presente em tudo aquilo que fazemos.

Num contexto urbano como Lisboa, qual deve ser hoje o papel da arquitetura na transformação da cidade?

A arquitectura assume hoje um papel decisivo nesse contexto. A cidade possui uma identidade muito forte, construída ao longo de séculos, e acredito que o nosso papel passa por conseguir preservar essa memória sem impedir a sua evolução natural. Interessa-me particularmente essa relação entre permanência e transformação. Recuperar elementos únicos, preservar determinadas características morfológicas e conciliá-las com novas formas de habitar, novas exigências e uma linguagem contemporânea. Lisboa tem uma luz rara e única e uma enorme riqueza material e espacial. A arquitectura deve saber proteger isso, mas também reinterpretá-lo e projectá-lo para o futuro.

Muitos dos seus projetos partem de edifícios existentes. O que procura "ler" primeiro quando entra num edifício para reabilitar?

Quando entro num edifício para reabilitar, procuro primeiro perceber aquilo que o distingue. Identificar proporções, materiais, detalhes, a orientação solar, a relação com a envolvente e, sobretudo, perceber se existe algum elemento raro ou irrepetível que mereça ser valorizado e evidenciado. Há edifícios que revelam imediatamente uma determinada atmosfera. Quase como se já contivessem parte do projecto dentro deles. Tento sempre ouvir primeiro o edifício antes de começar a desenhar sobre ele.

No projeto das Janelas Verdes, qual foi o ponto de partida conceptual para a intervenção?

O ponto de partida esteve muito ligado à própria história e localização do edifício. A proximidade ao Museu Nacional de Arte Antiga, ao largo, ao rio Tejo e a orientação solar conferiam-lhe já uma identidade muito forte. O projecto procurou reforçar essa relação com o lugar e potenciar aquilo que o edifício naturalmente oferecia, trabalhando a luz, a escala dos espaços e a própria relação entre interior e exterior e com a própria praça.

“Já tínhamos trabalhado anteriormente com a TANAGRA em duas obras muito especiais para nós: as Avencas e a Maison Eduardo Coelho, curiosamente, ambas duplamente premiadas. Para além da qualidade da execução, gostámos sempre muito da postura da equipa ao longo de todo o processo.”

Área exterior — Janelas Verdes

Interior — Janelas Verdes

Que elementos do edifício original considerou intocáveis e porquê?

Existiam vários elementos que considerámos essenciais preservar. Os pés-direitos altos, os tectos trabalhados, o logradouro, as escadas metálicas em caracol de acesso à "torre de vigia" na cobertura e a própria torre são elementos raros e muito identitários do edifício. Também o revestimento azulejar das fachadas, apesar de marcado pela época em que foi executado, possuía uma materialidade e uma presença que fazia sentido manter, reinterpretando-o através de uma abordagem mais contemporânea. A intenção nunca foi congelar o edifício no tempo, mas preservar aquilo que lhe dá carácter e autenticidade.

Fachada — Janelas Verdes

Como foi pensada a adaptação do edifício às exigências atuais de conforto e funcionalidade?

A adaptação do edifício às exigências actuais foi feita tentando conciliar, de forma natural, os elementos históricos com as novas necessidades técnicas e funcionais. Os tectos trabalhados, por exemplo, foram cuidadosamente removidos para permitir incorporar todas as camadas necessárias ao cumprimento das actuais exigências acústicas e de segurança (contra incêndios), sendo posteriormente recolocados com o desenho original. Ao mesmo tempo, tudo aquilo que foi introduzido de novo assume claramente uma linguagem contemporânea. Acreditamos que a melhor forma de respeitar o antigo é não fingir que o novo também o é. O “pastiche” tende muitas vezes a dissolver a autenticidade tanto do património histórico como da própria intervenção contemporânea. Os elementos novos devem assumir-se como actuais, mas sempre em diálogo e harmonia com a pré-existência. O projecto procurou ainda remover algum ruído acumulado ao longo do tempo, permitindo que os espaços recuperassem maior fluidez, luminosidade e naturalidade.

Como descreve a relação entre a arquitetura e a construção, e que fatores são críticos para garantir que a ideia arquitetónica é bem executada em obra?

A relação entre arquitectura e construção é indissociável. Um bom projecto dificilmente se concretiza sem uma boa construção. E uma boa construção também depende de um projecto rigoroso, claro e bem pormenorizado. É fundamental existir um bom empreiteiro, uma boa direcção de obra e um bom encarregado. Mas acima de tudo, pessoas com verdadeiro brio naquilo que fazem e que sintam orgulho na obra que estão a construir. A arquitectura desenha-se em projecto, mas constrói-se diariamente em obra, através de centenas de decisões, detalhes e cuidados. É precisamente nessa proximidade entre projecto e construção que a ideia arquitectónica consegue chegar ao fim com integridade.

De que forma a colaboração com a equipa da Tanagra tem contribuído para o resultado final das várias obras feitas em conjunto?

Já tínhamos trabalhado anteriormente com a TANAGRA em duas obras muito especiais para nós: as Avencas e a Maison Eduardo Coelho, curiosamente, ambas duplamente premiadas. Para além da qualidade da execução, gostámos sempre muito da postura da equipa ao longo de todo o processo. Existe uma enorme diferença quando encontramos equipas que verdadeiramente se envolvem na obra, que compreendem a importância do detalhe e que partilham a vontade de construir algo duradouro. Foi precisamente por essa razão que sentimos confiança em recomendar novamente a TANAGRA ao Dono de Obra para este projecto. Acreditamos muito que os melhores resultados surgem quando existe respeito mútuo, diálogo e uma ambição comum entre arquitectura e construção.

Entrada — Janelas Verdes

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Tanagra reabilita edifício histórico nas janelas verdes